MASARYKOVA UNIVERZITA FILOSOFICKÁ FAKULTA Ústav románských jazykù a literatur Alena Va¹íèková A HISTÓRIA DE ANGOLA ATRAVÉS DO ROMANCE YAKA Bakaláøská diplomová práce Vedoucí práce: Mgr. Silvie ©pánková BRNO 2006 Prohla¹uji, ¾e jsem bakaláøskou diplomovou práci vypracovala samostatnì s vyu¾itím uvedených pramenù a literatury. V Brnì 22.5.2006 Alena Va¹íèková Dìkuji Mgr. Silvii ©pánkové za èas vìnovaný této práci a cenné pøipomínky. Índice 1. Introduçao.................................................................................................................... 4 1.1. Introduçao ao Trabalho.......................................................................................... 4 1.2 Introduçao ao Autor e Obra................................................................................... 6 2. O Processo Histórico.................................................................................................... 8 2.1 O Desenvolvimento até 1890.................................................................................. 8 2.2 A Boca: 1890/1904.............................................................................................. 10 2.3 O Desenvolvimento entre 1904 e 1917................................................................. 15 2.4. Os Olhos: 1917.................................................................................................... 17 2.5 O Desenvolvimento entre 1917 e 1940................................................................. 21 2.6 O Coraçao: 1940/41............................................................................................ 22 2.7 O Desenvolvimento entre 1941 e 1960................................................................. 24 2.7 O Sexo: 1961....................................................................................................... 26 2.8 O Desenvolvimento entre 1961 e 1975................................................................. 29 2.9 As Pernas: 1975................................................................................................... 31 3. Algumas Notas sobre o Colonialismo Portugues........................................................... 34 3.1 Perspectiva Histórica............................................................................................ 34 3.2 A Família Semedo: Personificaçao do colonialismo Portugues................................ 38 4. Conclusao................................................................................................................... 40 5. Bibliografia.................................................................................................................. 41 1. Introduçao 1.1. Introduçao ao Trabalho Mas, entanto que cegos e sedentos Andais de vosso sangue, ó gente insana, Nao faltarao Cristaos atrevimentos Nesta pequena casa Lusitana: De Africa tem marítimos assentos; É na Ásia mais que todas soberana; Na quarta parte nova os campos ara; E, se mais mundo houvera, lá chegara.[1] África nao era o único destino da obsessao dos portugueses de descobrir, conquistar, baptizar e negociar, mas - comparando com outras colónias na América Latina ou Asia - as consequencias do colonialismo foram as mais drásticas. Nas escolas europeias aprendemos principalmente sobre a história europeia, incluindo horribilidade das guerras mundiais, e pouca atençao é prestada `a história de África, nao menos sangrenta e chocante. A escravidao nao é uma invençao da época colonial, pois já a assim chamada democracia da Grécia antiga nao duvidava que uma parte da populaçao era só coisas pertencentes ao dono; nao obstante, a escravatura africana ultrapassou todos os limites da perversao humana. O "Sagrado Ofício" dos portugueses de colonizar novas terras e espalhar a fé crista, nem que seja a ferro e fogo, levou ao sofrimento de milhoes de pessoas. A doutrina católica sobre a igualdade de pessoas foi silenciada, como qualquer ideia nao conveniente `a Igreja. Por outro lado, a própria Igreja Católica "consagrou" os interesses coloniais dos portugueses. A demagogia católica desempenhou um papel semelhante `a propaganda na literatura (Os Lusíadas nao é de longe uma única obra deste tipo) e, mais tarde, `a propaganda feita sistematicamente pelo regime salazarista. O caminho `a independencia foi longo e nao fácil, e ainda após a desligaçao de Portugal, os países africanos passaram por muitos problemas antes de atingirem verdadeira liberdade e paz. O objectivo deste trabalho é descrever e interpretar as alteraçoes políticas e sociais, que decorreram em Angola entre 1890 e 1975, tendo como ponto de partida o romance Yaka do escritor angolano Pepetela. O romance é dividido em cinco capítulos que captam anos-chave para o desenvolvimento do país: analisaremos referencias históricas mencionadas no romance, comparando-as com dados das fontes históricas. Será também necessário mencionar os acontecimentos mais importantes que decorreram entre os anos referidos, pelo menos os que forem necessários para a compreensao do desenvolvimento. Tentaremos descobrir os impulsos que levaram `a oposiçao contra o regime colonial portugues e, a seguir, `a guerra pela liberdade nacional. 1.2 Introduçao ao Autor e Obra Pepetela[2] (nome de guerra e posterior pseudónimo literário de Arthur Carlos Maurício Pestana1 dos Santos) nasceu em Benguela, em 29 de outubro 1941 como descendente de uma família colonial portuguesa. Estudou em Benguela toda a sua infância e adolescencia. Em 1958 partiu para Lisboa onde frequentou um curso de engenharia no Instituto Superior Técnico, depois de dois anos transferiu-se para Letras. Em 1963 tornou-se militante do MPLA[3] viajando para Argel. Na capital argelina formou-se em Sociologia e integrou o Centro de Estudos Africanos que apoiava o MPLA com a publicaçao de manuais que contribuíam para a divulgaçao da história e geografia de Angola nos estudos primários desse país. A luta pela independencia de Angola levou Pepetela a viajar até Cabinda e Moxico, regressou ao seu país em 1974. Após o fim do colonialismo, e com o Governo do MPLA, Pepetela foi nomeado, em 1976, vice Ministro da Educaçao, cargo que exerceu até 1982. Em 1997 recebeu o Prémio Camoes, que o consagra como uma figura marcante da literatura da língua portuguesa. Actualmente é professor de Sociologia da Faculdade de Arquitectura de Luanda, onde vive. Na sua obra, Pepetela concentra-se sobretudo na temática histórica e acompanha as mudanças sociopolíticas do seu país. Ou seja, na história busca a matéria para a ficçao, como podemos ver por exemplo em Mayombe (1980), Yaka (1985), Lueji (1990), A Geraçao da Utopia (1992), O Desejo de Kianda (1995), Parábola do Cágado Velho (1996), A Gloriosa Família (1997). Noutro lado nao se esquece dos mitos e das ricas tradiçoes culturais angolanas (Muana Pó (1978)), nem do humorismo: Jaime Bunda, Agente Secreto (2001), Jaime Bunda e a Morte do Americano (2003). Pepetela é também co-autor da História de Angola, ediçao do MPLA, publicada em Argel em 1965 pelo Centro de Estudos Angolanos e autor de, entre outras obras, de Luandando, uma panorâmica descritiva do perfil sociológico da cidade de Luanda. Dificilmente podíamos dizer sobre um dos livros referidos que é restritamente histórico. Há motivos que permeiam toda a obra de Pepetela, há ecos, há referencias entre os livros. Mas o objectivo é sempre o mesmo: captar e apresentar a realidade angolana, o processo histórico que levou o país do colonialismo através guerra até a independencia, o progresso misturado com o mundo tradicional, as características da sociedade e da mentalidade angolana. De tudo isto sobressai o interesse pelo Homem. Com a humildade, Pepetela enquadra na sua obra o ciclo de vida, o nascimento, o amor e a morte. "Eu estava completamente preso `a história quando escrevi o Yaka".[4] "É um livro onde acredito nao hajam muitos erros históricos."[5] Nas sociedades africanas, onde há uma falta de obras puramente históricas, a ficçao pode substituí-las. Esta atitude nao está longe da forte tradiçao da oralidade nas sociedades africanas: os mitos, bem como os verdadeiros acontecimentos, eram transmitidos duma geraçao para outra oralmente. O género de romance é o mais próximo ao estilo muito antigo e próprio de muitos povos, a epopeia. Utilizando a forma de romance, há grande probabilidade que a mensagem será lida e compreendida, ou transmitida para geraçoes seguintes: Mas é uma tentativa de mostrar: era assim. (...) Daqui a uns tempos nao haverá pessoas que tenham vivido a situaçao colonial por "dentro". E toda a nova geraçao deverá ouvir falar, apenas. Há de haver textos de história sobre o que era o colonialismo, o que era a mentalidade do colono, etc., mas forçosamente texto de história, é uma coisa fria... e as pessoas acabam por imaginar o que seria, mas nao compreender profundamente, e aí é o papel do romance, fundamental, para a nova geraçao conseguir "viver" um pouco o que era a vida antes. Aí há também uma preocupaçao de registar para a história. E há pouca gente que escreve, que tenha tido essa vivencia. E aí eu pensei, eu tenho essa vivencia da sociedade colonial, eu tenho a vivencia dos que se opuseram `a sociedade colonial, eu sou um dos raros cinco, seis ou dez que possam fazer isso. [6] 2. O Processo Histórico 2.1 O Desenvolvimento até 1890 Para percebermos a situaçao em 1890, o ano em que começa o romance Yaka, é preciso esboçar o desenvolvimento desde os primeiros contactos entre Portugal e Angola e as primeiras fases do colonialismo portugues. Angola era povoada pelo menos desde oséculo V a.C., mas existem achados arqueológicos de ocupaçoes muito anteriores. Os portugueses, sob o comando de Diogo Cao, no reinado de D. Joao II., chegaram ao Zaire em 1482-1484. Poucos anos mais tarde os portugueses voltaram e trouxeram um grupo de missionários e artesoes. A seguir iniciou-se a conquista desta regiao de África, incluindo Angola, e uma nova época para o reino de Kongo que dominava a regiao. A política portuguesa em relaçao ao manikongo[7] passou por várias fases. No início os portugueses tratavam-no como igual, limitavam-se a mandar para África os missionários e artesoes e com a ajuda do manikongo exploravam o interior para reservarem um monopólio comercial e para difundirem o cristianismo. Esta fase acabou em 1570 ao o manikongo se tornar vassalo do rei portugues e os portugueses começarem a meter-se nos assuntos internos com o objectivo de captar os mais escravos possíveis. Angola transformou-se rapidamente no principal mercado abastecedor de escravos das plantaçoes da cana-de-açúcar do Brasil e de Sao Tomé e Prícipe e funcionou assim até finais do século XVIII. O reino desintegrou-se nos países pequenos, cujos sobas dependiam dos governadores portugueses. Durante a ocupaçao filipina de Portugal (1580-1640), os holandeses tentaram afastar os portugueses desta regiao, ocupando grande parte do litoral (Benguela, Santo António do Zaire, as barras do Bengo e do Cuanza), mas em 1648 foram expulsos. Depois da proclamaçao de independencia do Brasil em 1822, o tráfico de escravos foi oficialmente abolido em 1836, mas nao era nada difícil subornar os funcionários. Em Dezembro de 1854, apareceu o primeiro decreto governal abolindo a escravidao. Segundo outro decreto, de Abril de 1858, estimava-se o desaparecimento da escravidao dentro de vinte anos. Nao obstante, nem o decreto governal de Fevereiro de 1869 acabou com a escravidao: os escravos tornaram-se "libertos", mas tinham que servir aos seus donos até 1878. Depois entrou em vigor a lei sobre o trabalho contratual. Pessoas contratadas chamavam-se "serviciais"; qualquer pessoa sem contrato foi designada como "vagabundo", o que a levou ao trabalho forçado. De qualquer maneira, a caça aos escravos continuou, num país de tanta extensidade como Angola era impensável controlá-la; todavia pela primeira vez era considerada ilegal. As consequencias eram catastróficas: o número de escravos deportados de Angola e Congo estima-se entre 6 000 000 e 13 000 000[8], muitos morreram ainda durante o transporte. É natural que os lugares façam lembrar do passado como acontece no caso de Benguela, um porto importante para o tráfico de escravos, onde decorre a grande parte da narrativa: "Benguela dos quintaloes. Quintaloes onde escravos dos Ganguelas, do Bié, da Lunda[9], dos Lozi e de mais ainda, da costa Oriental de África, vinham parar. Engordavam aí para resistir `a viagem de barco até S. Tomé, Antilhas ou Brasil. " (Pepetela: Yaka, p.25) Angola, sempre referida pelos cronistas portugueses como uma terra bem povoada, tornou-se num dos países menos povoados da África tropical. A escravidao nao corrompeu só o pensamento das pessoas (a degradaçao do ser humano considerado uma coisa ou animal, chamado peça; durante a época de escravidao nasceram os mitos europeus sobre a inferioridade da raça preta), mas também a economia. Excepto o comércio de escravos (sobretudo nos portos como Luanda e Benguela), nao havia outros negócios. Nem o comércio podia contribuir para o desenvolvimento económico, pois os artigos recebidos em troca de escravos eram sobretudo tecidos, armas, álcool e bugigangas. O antigo mercado entre tribos, tao desenvolvido na África central, quase desapareceu, pois os contactos reduziram-se em assaltos e guerras de pirataria. "O comércio tinha caído muito, porque Benguela e Catumbela viviam do embarque de escravos." (p.27) Os países grandes iam-se desintegrando e os sobas concentravam nas suas maos todo o poder, tentando tirar o mais possível do comércio. Os portugueses suportavam estas tendencias; era mais fácil ditar os preços aos comerciantes pequenos. A colonizaçao do interior renovou-se entre anos setenta e noventa do século XIX, pois os africanos ainda controlavam o comércio nos planaltos do interior. Tratou-se também duma resposta `as pretensoes de outras potencias europeias, como a Inglaterra, a Alemanha e a França, que reclamavam na altura o seu quinhao em África. Em 1884-5, durante a Conferencia de Berlim, foram estabelecidos os limites das pretensoes portuguesas e nos anos seguintes foram firmados diversos tratados estabelecendo os territórios que a cada um cabem. 2.2 A Boca: 1890/1904[10] No centro do romance Yaka é a família Semedo, oriunda, bem como a de Pepetela, de Portugal. O primeiro dos Semedos, Óscar, chega a Moçâmedes em 1880, exilado de Portugal por ter morto a sua mulher. Nunca admite este fato e proclama que foi por causa das suas opinioes republicanas. Sendo da origem nobre, mais tarde nao lhe apetece muito falar sobre os primeiros anos em Angola em que se dedicava aos trabalhos agrícolas. Muda para Capangombe onde há uma centena de famílias brancas, a maior parte degregados[11], militares e >>brasileiros<<. E também mulatos, "era coisa que crescia como capim" (p.20). Encontra ali a sua segunda mulher, Esmeralda, "a primeira branca a nascer em Capangombe"[12]. No fim do século XIX, os africanos constituiam mais que 99 % da populaçao angolana. Em Angola havia menos que 10 000 brancos[13], concentrados sobretudo nas cidades litorais, em Luanda e em Benguela. Da maior parte tratava-se dos degregados ou pessoas que nao tinham sucedido em Portugal ou no Brasil. Os degregados eram envolvidos no tráfico de escravos e difundiam desordem e corrupçao no país. Por causa do seu comportamento sem escrúpulos, a maioria de africanos angolanos começaram a desconfiar dos colonos portugueses. Além do tráfico de escravos, os portugueses (sobretudo os que vieram no fim do século XIX e depois no início do século XX) dedicavam-se `a agricultura e pesca, bem como `as actividades comercias nas cidades e ao mercado no sertao. Na parte do sul, as colónias de fazendeiros que tinham vindo residir no início do século XIX iam desaparecendo com os colonos, voltando para Luanda. Os colonos faziam cana-de-açúcar, algodao e criaçao de gado, mas uma coisa corrente eram os ataques dos mucubais[14] roubando o gado e em seguida as vinganças dos brancos e roubos multiplicados. O gado de Óscar Semedo foi o único que nao sofreu nada da peste bovina e trouxe-lhe lucro, bem como especulaçoes com o gado nos anos depois da seca em 1887. Após o casamento com Esmeralda decide-se nao permanecer mais naquela regiao atrasada e mete-se ao caminho para Benguela. Levam também a velha Ntumba, escrava que tinha criado a Esmeralda e naquela altura lhe pertencia. No caminho, em 1890, nasce o primeiro filho, Alexandre Semedo. Mais tarde a família chega a Benguela. Como já dissemos no capítulo 2.1, embora a escravidao já tivesse sido oficialmente abolida em 1858, respectivamente em 1869, as relaçoes entre donos e escravos nao foram rompidas logo e demoraram ainda muitos anos. A época referida, a viragem dos séculos XIX e XX, é caracterizada pela luta incipiente contra os colonos. Nao é de estranhar que Óscar Semedo decide fugir da "regiao insegura com constantes levantamentos de libertos, mucubais e mundombes[15]" (p.21). O comércio prosperava, mais e mais portugueses chegavam a Angola, "cada barco trazia mais colonos para o Bié, o Huambo, Benguela." (p.37). Pela primeira vez, os emigrantes portugueses foram voluntariamente para Angola. A imagem de colónia de degregados desvanecia-se. Com tempo os escravos foram substituídos por borracha, cera, marfim e couros. Mas a prosperidade nao demorou muito tempo por causa da concorrencia da borracha asiática mais barata. "A culpa é dos ingleses e holandeses. Eles é que se lembraram de ir buscar ao Extremo Oriente, só para nos tramar." (p.40) "Essa crise da borracha ia provocar muita maka. Até guerra." (p.42) No interior mandavam os capitaes-mores, mas "em vez de dominarem os cafres, só fazem comércio" (p. 48). Os levantamentos eram cada vez mais frequentes. Depois da derrota em 1904 cerca do vau de Pembe Portugal reforçou as suas forças armadas e já em 1907 José Augusto Alves Roçadas venceu e dominou esta regiao de sul. Alexandro acaba a quarta classe e graças `a herança da loja do Sô Queirós na qual Óscar trabalha torna-se dono do seu próprio pai. No mesmo tempo ouvem a novidade que tinha se chegado ao acordo com os ingleses para um caminho de ferro que partia da costa e atravessava todo o centro até `a fronteira oriental. Em 1901 começou a construçao do caminho de ferro de Moçâmedes a Lubango. Em 1902 o governador atribuiu a licença aos ingleses para construirem e por 99 anos utilizarem o caminho de ferro juntando o porto Lobito com os planaltos em cima de Benguela e chegando até a fronteira dos territórios ingleses. Isso implicou o fim das caravanas carregando artigos do interior, pois no comboio poderiam-se transportar quantidades que as caravanas levavam meses, tudo ir-se-ia vender mais barato, deixaria de haver necessidade de intermediários e os quimbares iriam perder a influencia política sobre os reinos do interior. Os africanos também percebiam a obra como a ameaça dos trabalhos forçados e a inquietaçao estendia-se. "Os brancos de calçoes compridos escreviam e gritavam. Os capatazes vinham e regritavam as ordens. Os cipaios[16] vimbali faziam cumprir com a palmatória e o chicote, quando o cansaço já curvava as costas dos homens ao peso da picareta. Os que morriam eram sepultados ao longo do caminho de ferro. Recrutavam mais para tomar lugar dos defuntos. Nao era para isso que havia regedores e administradores e capitaes? Para que refilar comida era pouca? Tinha pirao todos dias, `as vezes com peixe seco pescado em Benguela. Precisava mais? Trabalha, trabalha, cantava o chicote. " (p.95) O comércio com o interior foi rompido com a revolta dos bailundos. Começaram a queimar as lojas dos comerciantes no Bailundo, havia centenas de brancos mortos, os primeiros refugiados chegavam a Benguela. "Falavam no chefe, o terrível Quebera e seu amigo Samacaca. Como começara? Ninquém que sabia contar. Só que esse Quebera era um monstro, trazia uma pele de onça nas costas, dentes enormes que lhe saíam da boca a escorrer sangue. " (p.52) Mutu-ya-Kevela[17], pelos comerciantes chamado Quebera, em 1902 dominou toda a zona que era impensável uma caravana passar. Começou a guerra contra os portugueses. Os habitantes nas suas petiçoes inumeráveis pediam que o Governador tomasse medidas, mas a tropa parou numa distância segura. Os habitantes de Benguela escrevem uma petiçao ao Governador-Geral exigindo novo Governador em Benguela e mais tropa para pôr o interior em ordem. Mutu-ya-Kevela veio buscar o soba do Huambo para se unirem na luta contra os colonos, a escravatura, a posiçao inferior de serem só intermediários do comércio e contra o álcool que enfraquecia os homens. "Mesmo os sobas independentes sao escravos, escravos da borracha. (...) É preciso fazer muito milho, (...) nao ser intermediário do comércio da borracha." (p.54) Esta guerra foi pacificada só pelas tropas metropolitanas mandadas pelo governador-geral Pais Brandao, em Julho, matando Mutu-ya-Kevela bem como, em Outubro, o soba do Huambo. A guerra foi terminada mas as caravanas do interior nao chegavam e os negócios estavam no zero. Os responsáveis perceberam que era necessário que os indígenas participassem na administraçao. "A tropa começou nomear novos sobas, fiéis a Portugal. Lhes chamavam regedores indígenas." (p.69) A sua primeira tarefa foi reactivar o comércio com Benguela. Com tempo, as caravanas reapareceram e o preço da borracha voltou a subir ligeiramente. O pai manda Alexandre para a loja ajudá-lo. Passando dias na loja `a espera dos clientes, Óscar revela ao filho a sua paixao pelos gregos. Falando-lhe sobre a História, a literatura, as lendas, dando-lhe livros para ler. Os preços da borracha cairam pela segunda vez, agora por causa da concorrencia da do Extremo Oriente, mais barata e da melhor qualidade. Óscar Semedo o tinha previsto e orientou-se para outros artigos. Comerciantes amarrados só `a borracha perdem tudo, até alguns se suicidam. A história se repete. Outra vez aparece o medo dos bailundos e os ingleses dizem que nao continuarao as obras do caminho de ferro se o interior nao estiver pacificado. O ano de 1890 é também o ano do Ultimato Ingles. Em 1886, Portugal fez um gesto que outras potencias achavam ser uma piada: no assim chamado mapa de cor-de-rosa apresentou ao mundo a sua ideia sobre a divisao da África. A Portugal devia caber todo o espaço entre Luanda e Moçambique (no mapa pintado de cor-de-rosa). Naturalmente, por este território interessavam-se os ingleses, tendo como objectivo criar um império de Cairo até Cidade do Cabo. As pretensoes portuguesas foram travadas pelo ultimato, o primeiro passo que levou o empenhamento britânico em África em direcçao `a guerra. "Um suave ultimato" enviado a Lisboa a 10 de Janeiro de 1890 ameaçando com a guerra intimidou Portugal e levou `a Convençao Anglo-Portuguesa, limitando as esferas da influencia de uma forma muito desvantajosa para Portugal. A atmosfera antibritânica é bem captada no romance: os portugueses estavam mesmo convencidos que os territórios da África Central lhes pertenciam e que os ingleses, pejorativamente chamados de bifes, tinham procedido injustamente. Óscar Semedo sempre se interessava pela política e nao conseguiu aceitar o ultimato ingles, "cada vez que falava disso, espumava de raiva: -Tiraram-nos o que era nosso. Todo o território do Atlântico ao Índico, o território cor-de-rosa, era nosso por direito natural. De descoberta. Mas os ingleses queriam o meio. E disseram: ou nos dao isso, ou é a guerra. E esse rei incapaz e covarde dobrou-se. "(p.26) Os ingleses também inspeccionavam se o comércio de escravos realmente acabou e nao deixavam os barcos atravessar o Atlântico. "Os navios ingleses andavam `a caça dos barcos negreiros e Portugal tinha assinado o tratado para pôr fim ao >>tráfico de cabeças-de-alcatrao<<. Se foi fazendo, mas em menor quantidade. Na altura, já só os enviavam em pequenas ambarcaçoes para S. Tomé." (p.8) Naquela altura também era preciso travar as expansoes alemas, pois haviam tentaçoes de anectar a parte do sul. Em 1898, os alemaes receberam uma permissao da Inglaterra para tomarem o sul de Angola; só um ano mais tarde a guerra anglo-boer garantiu a inviolabilidade das fronteiras portuguesas. Nao obstante, as negociaçoes sobre divisao das colónias portuguesas entre a Inglaterra e a Alemanha continuavam até mes de Julho de 1914. A Inglaterra atribuiu Angola `a Alemanha, mas um mes depois rebentou a Guerra Mundial e a convençao tornou-se inútil. 2.3 O Desenvolvimento entre 1904 e 1917 Caracterizemos agora brevemente o desenvolvimento entre anos 1904 e 1917. A imigraçao intensiva trouxe, entre outros, novas tecnologias e instalaçoes. Foram construídas centrais eléctricas, ligaram-se as primeiras lâmpadas (no romançe mencionado como uma lembrança dos vândalos que as sempre partiam). A ligaçao entre Portugal e Angola intensificou-se. Angola estava completamente sob a influencia portuguesa, considerada sua posse e sem perspectiva de libertaçao futura. Por outro lado, possuir ainda nao significava controlar. Nem em 1917 Portugal controlava todas as regioes angolanas; isso só conseguiu no início da terceira década do século XX. Nao sendo capaz de dominar o espaço militarmente, Portugal tentou controlar pelo menos a economia. Uma lei de 1906 carregou de impostos os indígenas. Um ano mais tarde foi implantada a cultura obrigatória do algodao, tendo como consequencia ainda mais fome, pois os africanos nao conseguiram sincronizar a cultura do algodao com a cultura dos produtos de alimentaçao. Em 1910 implantou-se em Portugal o regime republicano mas as ideias republicanas nao chegavam muito a Angola. Em 1912 veio José Mendes Ribeiro Norton de Matos (governador-geral no período de 1912 a 1915 e alto-comissário em 1921-24) para realizar suas reformas: tentou solidar as finanças públicas para motivar o trabalho dos africanos, suportava a colonizaçao e garantiu a liberdade a todos os missionários desde que utilizassem portugues. Entendeu também que a melhor forma de oposiçao `as pretensoes alemas seria o efectivo desenvolvimento económico da colónia e a rápida resoluçao dos conflitos e revoltas. O seu programa pode ser resumido em sete componentes básicas: I - Passagem da organizaçao administrativa militar para a organizaçao administrativa civil. A posse civil do território. II - O novo indígena: - da condiçao de trabalhador recrutado para a de proprietário e cultivador rural. Os géneros pobres. O aumento da produçao. III - As estradas. IV - A proibiçao do comércio da ´pólvora e armas´, e do fabrico e venda de bebidas alcoólicas. V - A assistencia médica aos indígenas. O congresso da medicina tropical. VI - A educaçao e a instruçao. VII - A vida de família e o conforto dos europeus. Habitaçoes, transportes, comunicaçoes, segurança e ordem públicas.[18] Nos anos seguintes mostra-se a previdencia de Norton Matos. "O Governo tinha razao. Por um lado combatiam-se as rebelioes e por outro davam-se as armas para as rebelioes. Foi o Norton Matos que proibiu, o único Governador inteligente que Angola teve." (p.212) 2.4. Os Olhos: 1917 A atmosfera do ano 1917 está brevemente descrita no início do capítulo, resumindo ao mesmo tempo os acontecimentos dos últimos anos referidos nos capítulos 2.2 e 2.3: revoltas dos bailundos, interrupçao do comércio com o interior que implicou mudanças do estatuto social dos "vimbali"[19], o avanço do comboio, implantaçao de impostos, trabalhos forçados e perda de sonhos dos indígenas por causa da solidificaçao da dominaçao portuguesa. "Comboio chegou no Huambo, os mortos ao longo da linha nao resuscitou. (...) O Bailundo parou as guerras, nunca mais, foi só buscar moleques no Moxico para mandar em S. Tomé. O Bailundo parou as guerras, `a espera do comboio, nao ameaçou mais Benguela nem Quilengues. Para que, se o comboio matou as caravanas? Os vimbali perderam a voz grossa, nao arreganham, viraram capataz de chitaca[20] e pescaria. Aiué, antigos sonhos! Os capatazes, se nao usam bem o chicote, as maos deles é que ficam inchadas com as palmatoadas. (...) Assim ficam os senhores do caminho do mato, fracos pelo que-tem-tem do comboio. Pagam imposto, isso mesmo, também os vimbali agora pagam imposto indígena. (...) Mutu-ya-Kevela? Está onde? Os miúdos até desaprenderam o nome dele. Nao há nome que fica quando comboio ingles avança. (p.99) Alexandre Semedo já tem tres filhos, Aquiles, Sócrates e Orestes, e também uma filha mulata com a negra criada Joana. Óscar Semedo já está morto - tanto festejou a queda da Monarquia, bebeu e dançou pela República triunfante que veio a biliose e morreu. O que preocupa todos e vai através todo o capítulo Os Olhos sao as revoltas contra a plantaçao de café. Angola experimentou muitas coisas que podiam dar lucro (o açúcar, a aguardente de cana, o tabaco, a vinha, a extracçao de carvao, a caça `a baleia, a prospecçao de cobre, o cultivo de trigo), mas nada funcionou bem excepto a produçao de café. No século XX, pela primeira vez, os imigrantes portugueses foram voluntariamente para Angola. A imagem de colónia de degregados desvaneceu-se. Geraçoes de traficantes de escravos e comerciantes de mato converteram-se em fazendeiros de café e gerentes de plantaçoes. (Há uma pequena referencia a este facto, na personagem de Sô Agripinho, "dono de caravanas e quimbares da sua meninice, que ia sendo condenado por tráfico de escravos, agora roceiro grande de café, a treinar discurso para deputado" (p.109).) Roubos de terras e o recrutamento forçado de mao-de-obra levaram aos constantes levantamentos de indígenas (que deram lugar `a guerra pela libertaçao em 1961). Um dos mais intensivos levantamentos ocorreu em 1917 no Amboim, uma zona com terras óptimas para a plantaçao de café. "Os cafres já estavam a fermentar há muito, recusavam-se a trabalhar nas roças, um ou outro soba resistia a abandonar as terras boas para café..." (p.106) As notícias espalham-se rapidamente: "- Os cabeças-de-alcatrao atacaram primeiro os comerciantes, mataram gente, queimaram as lojas. Depois foram-se levantando também nas roças. Os cozinheiros envenenam os patroes, depois incendeiam-se as casas. Só as roças maiores resistiram, todos os colonos se refugiam nelas. Ninguém pode andar nas estradas, para chegar a Novo Redondo é uma aventura. " (p.106) "As notícias vindas do Amboim eram terríficas: continuavam os massacres de brancos e os incendios de fazendas. Já nao devia ter sido muitos brancos vivos, a julgar pelos números. (...) Mas ninguém ria, porque se dizia ter sido descoberto um plano para matar todos os europeus de Luanda e Benguela." (p.142) Outros países, e sobretudo a Alemanha, perceberam logo que apareceu uma ocasiao para ganhar mais influencia em Angola e começaram a suportar as tentativas de indígenas. "-Se nao limpamos a casa, estamos lixados, os alemaes vem aproveitar. -Os alemaes? - se espantou Alexandre, interrompendo o outro. - Claro, os alemaes. Andam no meio dos negros, a comandar as operaçoes. (...) E também os calcinhas[21] de Luanda, lá no meio a darem palmadinhas nas costas de alemaes. Esses que aprenderam a ler nas missoes protestantes." (p.108) Os revoltados continuaram a incendiar as fazendas e a situaçao saiu do controlo das autoridades locais. O governador Massano de Amorim, de quem os jornais exigiam a demissao por nao apoiar os brancos no Amboim, finalmente tomou a iniciativa e pediu ajuda `as outras regioes, sobretudo de Benguela ("Na chata a seguir embarcaram os soldados que iam reforçar as tropas do Amboim, acuadas pelos sumbes[22] e seles[23] em revolta." (p.113)) e de Bailundo ("-Estao a preparar uma guerra preta[24]. Andaram a recrutar gente no Bailundo para irem para o Amboim. " (p.143)), foram mobilizados também homens sem treino militar. A situaçao era mais complicada por famas e superstiçoes em que as pessoas acreditavam. "-Mas tenho muito medo, sao muito selvagens lá no Amboim, até comem gente. É o que se diz em Huambo. " (p.144) A revolta foi reprimida e a situaçao virou, os brancos vinham para se vingarem. Aldeias inteiras foram liquidadas. "-Chegávamos a uma libata, que é kimbo de lá. Juntávamos toda a gente. E matava-se tudo, mulheres e crianças também. " (p.156) Levantamentos frequentes significavam que havia a vontade de mudar a situaçao em Angola. Inicialmente, as exigencias diziam respeito sobretudo ao rompimento do sistema de trabalho forçado. Com o tempo, as opinioes se radicalizaram e apareceram primeiras exigencias da verdadeira liberdade. (Angola tinha autonomia administrativa e financeira teoricamente a partir de 1914 mas realmente nada mudou.) Foi estabelecida a Liga Angolana, a primeira organizaçao política, tendo como seu objectivo atingir a democracia. Nao obstante, ainda havia longo caminho para andar - por tanto tempo a independencia tinha sido tao impensável que levou muito tempo para as ideias de Angola independente se instalarem no pensamento de seus habitantes, bem brancos como pretos. Naturalmente, entre os indígenas , as tendencias separatistas espalhavam-se mais rápido, por sentirem a injustiça e por sofrerem de trabalho forçado, mas também os comerciantes portugueses descobriram que a independencia de Portugal, entao um comércio sem intermediário, podia trazer mais lucro. As tendencias separatistas estavam mais fortes em Benguela, um porto e centro comercial importante. Todos esses argumentos aparecem também no romance, expressos nos diálogos entre portugueses. Benguela tinha boas condiçoes, era o melhor porto da África, tinha um caminho de ferro, um planalto rico em comida. Os habitantes poderiam negociar directamente com o estrangeiro vendendo o café, a cera e o marfim sem passar por Luanda ou Lisboa onde ficava a maioria do dinheiro. Muitas pessoas protestavam contra Luanda e Lisboa. A vitória da República acalmou um pouco as irritaçoes e aqueceu certas esperanças. Mas as lutas de partidos e grupos em Portugal tiraram as ilusoes: estava visto que os portugueses eram incapazes de desenvolver a terra. Era preciso tomas decisoes rápidas, modificar o sistema de trabalho forçado, atrair capital estrangeiro. (pp. 148-150) Apareceu também um fenómeno novo na sociedade: alguns colonos começaram a sentir a sua pertença a Angola. "-Sabe o que lhe digo? Perdemos a grande oportunidade no século passado. Independencia de Benguela com o Brasil. Já nao tínhamos estes problemas. Lisboa e Luanda é que fazem as burrices todas e depois nós pagamos. (...) O meu pai (Óscar Semedo) achava uma cretinice a independencia de Benguela, mesmo a de Angola inteira. Que nao haveria força para nos defendermos. (...) - Mas era portugues. Sentimentalmente ele nao podia aceitar a separaçao. Isso influenciava o seu raciocínio político. Mas nós nao somos portugueses. Voce e eu. Por isso nos entendemos de outra maneira. -Nao somos portugueses? -Nada temos a ver com aquilo. Somos benguelenses, o que é muito diferente. Era a primeira vez lhe diziam aquilo. Alexandre ficou assustado, pela coisa nova e inesperada. Soava como sacrilégio. Nao eram portugueses? Se havia alguma coisa que nunca tinha posto em dúvida era isso." (p.147) 2.5 O Desenvolvimento entre 1917 e 1940 O interesse por Angola cresceu com a descoberta de diamantes. Vieram os primeiros garimpeiros a explorar a terra, em 1920 foi formada a DIAMANG, Companhia de Diamantes de Angola, um concessionário exclusivo até os anos sessenta. Depois da opressao dos seles em 1917, os restantes rebeldes, os choques que ameaçavam a exploraçao de diamantes, foram em 1920 expulsos para o Congo. As tropas coloniais acabaram a subjugaçao do território angolano só em 1922, mas logo em 1924 houve uma rebeliao em Porto-Amboine, em 1925 em Ambriz e em 1939 em Mucumbaiz. Naquela altura a luta contra o colonialismo nao tinha muito a ver com a política, tratou-se em maior ou menor grau dos movimentos espontâneos dos grupos étnicos a defender o antigo sistema de vida. Com a implantaçao do regime colonial em progresso, a estrutura social e económica ia mudando e em vez duma massa indiferenciada apareceram novas classes socias e novas relaçoes entre elas. Depois da Guerra Mundial, Norton Matos quis continuar a reformar o país, mas foi expulso pelos brancos por ter sido filantrópico demais. Em Portugal, com a Revoluçao de 28 de Maio de 1926, caiu o régime republicano e instalou-se o régime do governo militar. António de Oliveira Salazar, Ministro das Finanças a partir de 1928, compreendeu que para o crescimento da Pátria era preciso tirar mais proveito das colónias. Como Ministro Ultramarino em transiçao fez passar em 1930 uma nova lei sobre colónias iniciando a centralizaçao administrativa e financeira do império. O mito da grandeza imperial passou a ser a ideia central da reeducaçao do povo por Salazar. O novo código laboral de 1928 melhorou os salários e o tratamento medical. No mesmo ano nasceu o projecto de imigraçao governada para aumentar a produtividade das plantaçoes de café, sendo a cultura melhor organizada e dirigida. A reforma monetária substituiu escudo pelo angolar, mas ao mesmo tempo aumentou os impostos. As agitaçoes espalharam-se nas cidades bem como no campo e desta vez ultrapassaram a dimensao local tribalista. O Estado Novo, proclamado em 1933, abertamente declarou as intençoes de assimilar os povos africanos e integrá-los no império portugues. A Carta Orgánica do Império Colonial Portugues de Novembro de 1933 declarou objectivos assimilativos. O propósito era a integraçao das sociades indígenas de colónias na naçao portuguesa. A campanha ideológica concentrada na "herança dos descobrimentos" caracteriza os anos trinta e quarenta. 2.6 O Coraçao: 1940/41 Em 1940 viviam em Angola cerca de 3,7 milhoes habitantes, disso 44 mil brancos[25]. Oficialmente a populaçao era dividia em duas categorias: os indígenas e os nao-indígenas (os brancos, mestiços e africanos assimilados). Praticamente existia mais uma categoria: os assimilados formalmente pertenciam `a segunda categoria, mas nao eram habitantes de pleno direito. Segundo os portugueses, todos os indígenas desejavam tornar-se assimilados, mas na verdade a maioria rejeitava, pois nao queriam ser considerados traidores e tornar-se "portugueses pretos". O estatuto do assimilado podia ser atribuido só ao africano que falava perfeitamente portugues, era cristao, podia dar provas que tinha um trabalho fixo, pagava os impostos, tinha atingido um certo nível de educaçao e nao tinha sido punido. A comissao que atribuía este estatuto tomava em conta sobretudo as opinioes políticas e a lealdade ao regime portugues. O assimilado nao era obrigado exercer o trabalho forçado, podia viajar sem pedir permissao, recebia - em teoria - o mesmo ordenário com os europeus e tinha direito a voto. Nao obstante, menos que 100 mil assimilados em 1940 provavam que a política de assimilaçao nao dava muito resultado. Além da assimilaçao jurídica existia a natural: a misturaçao. Os mestiços ganhavam o mesmo estatuto e os mesmos direitos como os portugueses[26]. Nos últimos anos, a economia ia enfraquecendo. "A crise económica se mantinha, as mudanças políticas em Portugal com a criaçao do Estado Novo traziam desassôssego." (p.173) O marfim, a borracha e o azeite-de-dende tinham sido substituídos pelo milho, açúcar e algodao. Cada vez mais africanos fugiam do alcance das instituçoes coloniais ou emigravam, sobretudo para a África do Sudoeste. A família Semedo tem um membro novo: o marido de Eurídice, a filha de Alexandre. Bartolomeu Espinho é um protótipo do colono portugues na época entre as guerras mundiais. "Lisboeta espertalhao e quase iletrado" (p.170), "nao tem escrúpulos, nao tem cultura, (...), mas é o diabo. Vai longe esse rapaz." (p.171). Bartolomeu ouve sobre a intensificaçao da cultura do algodao na zona do Bocoio e Balombo e decide atirar-se nela. O Banco empresta-lhe dinheiro, pois o Estado quer ajudar a cultura do algodao. Parecia que Angola se estava a ssimilar, mas em 1940-41 sucederam novas rebelioes: sublevaçoes dos mucubais. Estes acontecimentos fizeram lembrar que alguns territórios nao queriam pertencer a Angola e que algumas tribos iam defender a sua independencia. No caso dos mucubais, nao se tratou só da defesa da sua particularidade, mas também da luta sobre o gado, essencial para a vida da tribo, frequentemente roubado pelos brancos ou por outras tribos. Os brancos, provocados por sublevaçoes constantes e resistencia inesperada dos mucubais, resolveram o problema duma forma radical, até foram utilizados avioes para oprimir a rebeliao. A Benguela chega a notícia que os mucubais1, na zona de Moçâmedes, andam a matar pessoas. Mais tarde revela-se que a revolta está ainda mais perto de Benguela: na Bibala, em Capangombe. Os brancos primeiro tentam tirar o gado dos mucubais -- estes, sem o gado, perdem tudo, orgulho, identidade e rebeldia. Todo o gado deve ser reunido para o Estado que o vende depois em hasta pública. Mas a tribo resiste aos ataques, apesar de se defender só com flechas e azagaias. Sempre acontecia assim e por isso há muitas lendas e superstiçoes sobre feitiços poderosos protegendo a tribo. Mesmo os mucubais sao considerados monstros horríveis: "É verdade que tem as caras pintadas e dentes de vinte centímetros?" (p.218) As lutas regionais intensificam-se. Quem vem da zona referida, fala-da verdadeira guerra. Na Bibala, no Pocolo, em todas as partes. "Já nao habituais razias dos colonos e polícias que vinham requisitar o gado aos cuvale. Agora é guerra mesmo. " (pp.200-201) "-Estao a matar gente, os brancos estao a matar gente. Todos, todos..." (p.200) Apesar de a tribo ter sempre conseguido resistir aos ataques de outras tribos e do exército, contra "um pássaro grande que vomitava fogo" (p.201) já sao impotentes. Durante a II Guerra Mundial António Salazar manobrava entre os régimes do Eixo, com os quais a furto simpatizava, e a Gra-Bretanha - ser o seu aliado sempre valia a pena. Salazar mantinha a neutralidade sobretudo para que ninguém depois do fim da guerra, quem quer que ganhasse, pudesse colocar em dúvida a continuidade do império portugues. Naturalmente, os simpatizantes com Salazar acolheram este procedimento, como vemos na personagem de Ernesto Tavares, membro da secçao local da Uniao Nacional, o partido único de Salazar: "E por alturas da sua morte, defendia a neutralidade de Portugal na Segunda Guerra Mundial mas com indisfarçada simpatia por Hitler e Mussolini, homens fortes, que-era-o-que-os-povos-precisavam." (p.198) Com a Guerra Mundial subiu o preço do sisal e o Bocoio é excelente para o sisal. Bartolomeu Espinho decide tentá-lo. 2.7 O Desenvolvimento entre 1941 e 1960 Depois do fim da Guerra Mundial, Marcello Caetano, em 1946, tentou esboçar uma nova atitude perante as colónias: propôs que o império se tornasse uma federaçao; a proposta foi recusada pela Câmara de Corporaçoes que até recomendou continuar com a política de assimilaçao dos indígenas. Contudo, os planos de António Salazar nao se cumpriram. Depois do fim da guerra, o mito imperial salazarista foi atacado pela ONU e perdeu a sua perspectiva. O 73-o artículo da Carta da ONU declarou-se contra o colonialismo e o capítulo XII exigiu a libertaçao dos territórios dependenetes. Seguiu um acto formal: em 1951 as colónias foram proclamadas "províncias ultramarinas" e Portugal formalmente deixou de ser uma potencia colonizadora. Já nao admitia que outras potencias se metessem nos assuntos internais. O Estatuto dos Indígenas de 1954 manteve a maioria das populaçoes africanas na posiçao sem pleno direito. Era óbvio que as verdadeiras mudanças só podiam vir "de dentro". Por isso formaram-se movimentos e centros pela africanizaçao e libertaçao. Contudo, nao era permitido aos africanos reunir-se nas organizaçoes políticas ou sindicais, todas as organizaçoes vieram a ser a priori suspeitas, "viam-se pides por todo o lado" (p.236). Apesar do esforço das autoridades portuguesas de manter tudo em segredo, sabia-se que, em 1948-1949, a tropa portuguesa lutou contra rebelioes dos grupos Ovimbundo na regiao de Sá de Bandeira. Devido ao atraso das colónias portuguesas em termos gerais, `a opressao, ao sistema educativo descuidado e `a influencia da igreja, o desenvolvimento dos movimentos de libertaçao nacional foi travado por muitos anos, passando a ser mais activo (e melhor organizado) mais tarde do que nas outras colónias em África. Nos anos cinquenta, a ascensao dos movimentos de libertaçao nacional nos países circunvizinhos já tinha repercussao também em Angola apesar das tentativas de Salazar manter as colónias isoladas de influencias externas. Depois da guerra mundial, os centros de resistencia transladaram-se do campo para as cidades e para localidades onde havia concentraçao de trabalhadores. Apareceram intelectuais africanos que nao desejavam tornar-se portugueses pretos e cidadaos secundários do império salazarista. Para podermos seguir os capítulos do romance, é preciso descrever os maiores movimentos pela libertaçao, assim chamados "movimentos populares". Angola foi o primeiro país entre as colónias portuguesas onde nasceram verdadeiras organizaçoes políticas. A partir de 1953 criaram-se em Angola, sobretudo em Luanda e Benguela, muitas organizaçoes com o objectivo de lutar contra o colonialismo portugues. Em 1956 reuniram-se num só movimento e deram origem ao Movimento Popular de Libertaçao de Angola, MPLA. No início, o partido limitava a sua actuaçao para Luanda e operava entre os assimilados, mestiços e uma parte dos liberais portugueses, mas em breve difundiu a sua influencia para toda Angola. Segundo o seu manifesto, o fim foi a queda do régime portugues, a independencia, reformas socias e territoriais e construçao duma sociedade moderna sem prejuízos. O partido foi suportado pela inteligencia bem como pelos operários, camponeses, funcionários e soldados angolanos. Tomando como base as doutrinas do marxismo-leninismo, o MPLA colaborava também com o PCP -- Partido Comunista Portugues clandestino. O governo portugues respondeu com represálias: em 1955 foi presa uma parte da chefia do MPLA . Foram enviadas tropas da metrópole, mas já nao havia possibilidade de travar o movimento, especialmente na época quando outros países africanos um trás outro ganhavam a independencia. Em 1954 foi fundada a Uniao das Populaçoes do Norte de Angola, mudando o nome em 1958 para a Uniao das Populaçoes de Angola, UPA, com o líder Holden Roberto. Os simpatizantes recrutaram-se sobretudo dos habitantes das localidade agrícolas no norte do país, entre a nacionalidade Bakongo. A chefia do partido desde o início mantinha relaçoes estritas com o ABAKO, partido congoles, e suportava as tentativas de reconstituiçao do antigo império de Congo. Mais tarde, foi rebaptizada para Frente Nacional de Libertaçao de Angola (FNLA). Como uma bomba funcionou, em 1960, a proclamaçao da independencia do Congo Belga. O MPLA pediu que a ONU proclamasse as colónias portuguesas "territórios sem próprio governo" e iniciasse assim a descolonizaçao. A resoluçao da ONU de Dezembro de 1960 exigiu sem compromissos a independencia das países e naçoes coloniais. "Independencia do Congo, o Lumumba[27]... Essas ideias chegaram até cá. " (p.257) 2.7 O Sexo: 1961 Nas colónias europeias sempre existiram movimentos de oposiçao e resistencia `a presença das potencias coloniais. Ao longo doséculo XX, o sentimento nacionalista ia crescendo, suportado ainda pelos Estados Unidos da América e pela Uniao Soviética. Estas potencias da II Guerra Mundial alimentavam --- quer ideologicamente, quer materialmente --- a formaçao de grupos de resistencia nacionalistas, durante a sua disputa por zonas de influencia. Só durante a Conferencia de Bangung, em 1955, foram chamadas para considerar as reivindicaçoes do assim chamado Terceiro Mundo, primeiro para manter o equilíbrio nas relaçoes internacionais da Guerra Fria, segundo para encaminhar os sentimentos autonomistas. Com o "Ano de África", em 1960, a maioria das colónias francesas, italianas e britânicas ganhou a independencia. Era evidente que também nas colónias portuguesas o esquema de convivencia de gerentes brancos e trabalhadores pretos sem quaisquer direitos (a nao ser que fossem os assimilados) era já ultrapassado, mas o régime autoritário salazarista nunca aceitou este facto. Depois dos distúrbios no Cassange, no fim de 1960, a URSS proclamou que ia apoiar a luta pela libertaçao. O líder dos Bacongos convenceu John F. Kennedy que era preciso que os EUA apoiassem a resistencia angolana contra Portugal, apesar de serem aliados na NATO[28]. Senao havia perigo de o território cair nas maos dos comunistas. O ano 1961 foi decisivo para Angola. Começou com a sublevaçao dos trabalhadores do COTONANG[29], que se queixavam da exploraçao. Em Janeiro e Fevereiro, queimavam a seara e as missoes católicas e, para al~em disso, destruíam as pontes na regiao de Malange. As novidades chegam também a Benguela. Ouve-se que os revoltados mataram alguns roceiros, o distrito estava todo a ferro e fogo. Até havia planos para matar todos os brancos. Os brancos em Benguela estao com medo de os cozinheiros pretos envenenarem a comida e trucidarem-nos. A 4 de Fevereiro, Luanda foi acordada pela metralha: um grupo de revolucionários atacou a cadeia de Luanda e o posto policial; sete polícias foram mortos. Os chefes do MPLA exilados em Conacra informaram o mundo que tinha começado a guerra contra o colonialismo. No dia seguinte, depois do enterro das vítimas, os brancos armaram-se e vingaram-se passando pelos musseques, bairros de africanos, disparando por todos os lados. Luanda entrou em pânico e os distúrbios espalharam-se por todo o país. "Rapazes jovens compraram armas e invadiram os bairros de negros da cidade, atacando qualquer pessoa que achassem pudesse ser responsável pela revolta. Muitos foram mortos, especialmente aqueles que haviam ido `a escola e tinham começado adoptar os modos europeus."[30] Pessoas nem saem de casa, tem medo das milícias, diz-se que sao inexperientes e disparam `a toa. A luta transladou-se de áreas distantes, onde parecia estar tao longe, `a cidade. "Bailundos deram cabo da rebeliao no Norte. Mas agora está na capital." (p.280) Os tiros abalaram Portugal: o regime perdeu o seu triunfo, o mito sobre a convivencia pacífica dos brancos e pretos, graças `a cristianizaçao e lusitanizaçao. A 10 de Fevereiro, o ataque repetiu-se, desta vez feito pelo MPLA. O MPLA assumiu a tarefa do libertador: em fevereiro pediu que o mundo lho ajudasse a derrubar o colonialismo. A morte de Patrice Lumumba indicou a rivalidade entre CIA e KGB para ganhar a influencia sobre África. Parecia que o império nao pudesse resistir mais, as potencias pediram que se transformasse no commonwealth, mas Salazar recusou as reivindicaçoes americanas. Julgou que África sem brancos logo cairia na guerra e tribalismo. Desde o início haviam entre os movimentos várias discórdias e lutas fraccionárias - desligaçao do império significaria tanto desavenças interiores como a queda na influencia das potencias vizinhas ou mundiais, ou seja, novos soberanos. A 15 de Março de 1961, a grande rebeliao rebentou no norte de Angola. Os Bacongos que tinham perdido as suas terras deram origem a um massacre de populaçoes brancas, trabalhadores pretos de outras regioes de Angola, assimilados e católicos pretos. Os pretos eram vistos como colaboradores - ainda que forçados - que permitiam aos fazendeiros apoderar-se de terras dos anteriores camponeses negros, cultivadores de café. Os sublevados, armados de machetas, punhais e armas de fogo, trucidaram aldeias inteiras. O terror demorou uma semana e foi liquidado pelos avioes e bombardeamento. O governo portugues indicou a UPA, o agitador, ser uma organizaçao terrorista. A UPA tomou controlo da zona do norte. Os massacres continuaram. Grupos de violadores passavam pelo norte e atacavam os brancos, sem programa, sem ideologia. Antes de a tropa intervir, foram mortos cerca de 800 brancos e 6000 pretos[31]. "- Atacam as fazendas e matam tudo. Como os trabalhadores geralmente sao bailundos, matam-nos também." (p.289) " - Os terroristas? Querem expulsar os brancos, destruir as fazendas, queimar as casas. Foi o Lumumba que mandou." (p.289) "Assim que os brancos recuperaram dos massacres, desesperaram-se do facto de o combate ser chefiado pelos guerrilheiros representando a inimizade do Leste e do Oeste e pelos comunistas treinados no Congo e suportados pelos missionários protestantes."[32] " - Tipo catequista protestante que está a reunir as pessoas. Dizem que está a mobilizar os negros para um massacre generalizado dos brancos. Até há panfletos." (p.295) Portugal fez o máximo para acalmar as rebelioes e no mesmo tempo impôs novas reformas: o estatuto de indígenas foi cancelado e pela primeira vez todos eram iguais perante a lei. A educaçao foi tirada das maos da igreja, começou a alfabetizaçao. Em Outubro, o governador informou sobre liquidaçao total de terrorismo. Entretanto, a Assembleia Geral da ONU aprovou a proposta de ser aberta uma discussao sobre a situaçao em Angola. A maioria de membros simpatizava com os revoltados ("ignominiosa onda antiportuguesa na ONU, transformada por força de independencias demagógicas e fictícias num palco preferido para o desfile da grotesca batucada africana" (p.317)) e os diplomates portugueses sairam. Em abril 1961 a Assembleia Geral aprovou o procedimento que levasse `a desligaçao da África portuguesa do "país materno". A partir de 5 de maio o régime censurava todas as informaçoes de Angola para poder manobrar, sendo exposto `a opiniao pública mundial desfavorável. Desfigurava as informaçoes em todas as frentes: para habitantes das colónias, de Portugal e sobretudo para o mundo. "A Monarquia inaugurou o método, a República seguiu, o Estado Novo só continua a tradiçao. O exagero do número de massacrados, o requinte de detalhes, e também a influencia estrangeira. Agora é o Lumumba e os comunistas, antes eram os ingleses ou os alemaes." (p.262) Os movimentos de resistencia reforçavam-se. Os EUA começaram a suportar financeiramente a UPA: já a primeira soma foi suficiente para abrir treinos militares e profissionalizar as forças armadas. Mas já no decorrer do ano 1961 apareceram primeiras lutas entre os movimentos de resistencia: em Outubro, uma divisao da UPA atacou e assassinou vinte-dois guerrilheiros do MPLA. 2.8 O Desenvolvimento entre 1961 e 1975 Em 1962 teve lugar a primeira derrota de Potugal: perdeu a Goia. Este facto quebrou a moral de luta dos militantes em Angola. Em fevereiro de 1962 Salazar abriu a discussao sobre a concepçao do império. Marcello Caetano sugeriu fazer uma transformaçao radical e criar uma uniao livre, uma espécie dos Estados Unidos Portugueses. Salazar nao aceitou tal radicalismo e cortou a troca de opinioes, tao desejada, logo no início. Em março de 1962 a UPA foi relegada para o Congo. No entanto, as potencias nao deixaram a guerra em Angola parar. Com a ajuda da URSS, da Checoslováquia e da Cuba, o MPLA conseguiu formar uma concorrencia dos grupos bacongos. Recebeu dinheiro, especialistas e equipamento suficiente para formar um grupo em condiçoes de combater, treinado em Argélia. A UPA andou a ser suportada pelos EUA. A declaraçao do MPLA de março de 1962 conteve mais ódio para a UPA do que para Portugal. A UPA juntou-se com PDA, Partido Democrático de Angola, formando a FNLA - Frente Nacional de Libertaçao de Angola. Em 1963 o MPLA abriu uma frente em Cabinda. Apesar das tentaçoes da OAJ de unificar o combate, os conflitos entre o MPLA e a FNLA cresciam. A diplomacia entao reconheceu GRAE, o governo exilado em Léopolville, como o representante oficial do "povo angolano combatente". Todos estes conflitos internos e tendencias discordantes só atiraram Angola no caos. Os movimentos nacionalistas, pelo mundo concebidos como heróis, na realidade actuaram incompetentemente. A destruiçao de todo o "antigo", por isso mau, era apreciada como heroismo. No decorrer dos anos sessenta, o MPLA tornou-se o mais poderoso e ganhou um apoio geral como representante da luta pela libertaçao. O desenvolvimento em Angola deu razao a Salazar: era evidente que a democracia, de tanto ser proclamada como o resultado desejado da descolonizaçao, nunca ia funcionar segundo as visoes europeias ou americanas. Era impossível superar o regionalismo e tribalismo. Algumas potencias já renunciaram a suportar os nacionalistas. Em 1966 apareceu outro movimento: UNITA, Uniao Nacional para a Independencia Total de Angola, juntando sobretudo a nacionalidade ovimbundu do Sul de Angola. Apesar da guerra, Angola desenvolvia-se: cresceram os números das escolas e hospitais, funcionavam bibliotecas, museus, cinemas, teatros, arquivos e clubes desportivos. Foram descobertas mais jazidas do petróleo e a produçao ia aumentando. Nem o afastamento da cena política de Salazar, em 1968, alterou o panorama político. Só com as eleiçoes legislativas de 1969 se viria a verificar uma radicalizaçao da atitude política, nomeadamente entre as camadas mais jovens, que mais se sentiam vitimizadas pela continuaçao da guerra. As universidades desempenharam um papel fundamental na difusao deste posicionamento. É neste ambiente que a Acçao Revolucionária Armana (ARA) e as Brigadas Revolucionárias (BR) se revelam como uma importante forma de resistencia contra o sistema colonial portugues, dirigindo os seus ataques, principalmente, contra o Exército. Portugal ganhou, em 1971, mais um apoio: "As Flechas", os grupos de indígenas seles. Em 1971, com a revisao da constituiçao, Angola e Moçambique obtiveram o estatuto de país. Em 1972, o MPLA e a FNLA trataram da fusao e combinaram o procedimento comum. No entanto, quanto mais se delineava a perspectiva de tomar o controle, tanto mais os movimentos de resistencia tentavam enganar o seu concorrente e a opiniao pública mundial e apoderar-se da governaçao no país. Nunca existiu uma frente unida, o combate nunca conseguiu superar a sua fragmentaçao e além da destruiçao e repetiçao de lemas ideológicos nao trouxe muito de positivo. O governo portugues, a 25 de Abril de 1974, foi derrubado num golpe do Estado militar e este colapso, obviamente, foi sentido em Angola. Durante os 17 meses seguintes, os partidos políticos começaram a mobilizar os seus apoiantes e o exército colonial gradualmente retirou as suas tropas. 2.9 As Pernas: 1975 No início do ano decorreu um encontro da delegaçao do governo portugues com os representantes de tres movimentos de libertaçao reconhecidos: FNLA, MPLA e UNITA. Foi estabelecido um governo de transiçao que deveria levar o país `a independencia em novembro 1975. Os tres movimentos também iam participar em forças armadas e polícia. Apesar de tudo isso, os planos nao se cumpriram. O pessimismo do governo de transiçao é expresso também pelas personagens do romance: "-Até recusei sempre ir para os sítios do café e diamantes (...), sabia que havia muita malandrice e nunca me quis meter. Falam agora do que se passou no Bocoio. Que vao fazer inquérito. (...) -O Governo de transiçao é que vai fazer inquéritos sobre 61? Um governo formado pelos tres movimentos de libertaçao e mais os portugueses fazer alguma coisa? É um governo burgues, que está amarrado pelas suas contradiçoes e nao funciona." (p.331) Em março rebentou uma guerra entre a FNLA e o MPLA. A incapacidade de colaborar colocou em risco as preparaçoes da independencia. Embora os tres movimentos tivessem negociado outra vez, em junho, e combinado passos que levariam `a estabilizaçao, na guerra civil, os tratados deste tipo nao valiam nada. O MPLA expulsou todos os seus concorrentes de Luanda e as lutas alastraram-se por todo o país. A FNLA dominou o norte, liquidando tropas do MPLA e expulsando os portugueses para o Zaire. No fim de julho tomou Caxito, um ponto estratégico perto de Luanda. UNITA tomou conta do Bié e Huambo e em 1 de Agosto declarou oficialmente a guerra ao MPLA . O governo em transiçao caiu. "Em Luanda o MPLA expulsa os outros dois, vai terminar o Governo de transiçao. A FNLA tomou conta do Norte. A Unita do Bié. No Lobito já houve tiros." (p.339) A guerra civil transformou-se num conflito internacional: UNITA era apoiada pela África do Sul que já desde anos sessenta tentava ganhar mais influencia em Angola; os países comunístas apoiavam o MPLA; Zaire e forças ocidentais anti-comunístas suportavam a FNLA. Seguiram invasoes da África do Sul (que ocupou um complexo hidroeléctrico Ruacaná de que dependia a maior parte do sudoeste) e da Cuba. Vem a notícia sobre a invasao dos sulo-africaes apoiada pelos portugueses reaccionários para impedir a independencia. Os sulo-africaes vencem, os Faplas[33] retiram para Benguela com baixas pesadíssimas. O objectivo de todas as partes inimigas foi dominar a capital no dia da proclamaçao de independencia. Nesta competiçao, o MPLA é que ganhou. Contudo, o almirante Leonel Cardoso rejeitou entregar a bandeira ao MPLA e fez um gesto teatral: entregou Angola ao "povo angolano". O novo país africano oficialmente nasceu a 11 de novembro 1975, proclamado pelas frases comunístas suponhando a liderança do MPLA. Os brancos fugiam em massa, para Portugal ou para os países africanos vizinhos. O ambiente social mudou: os colonos, por tanto tempo indesejados, estavam a ser constantemente atacados, começou a indolaçao da populaçao negra, o "único verdadeiro possuidor da terra angolana". Vemos também no romance como se muda o estatuto do colono, bem como aconteceu nos países europeus sob a ditadura e ideologia socialista. "Dizer que ele é burgues ou capitalista agora já é feio? Há pouco tempo era honra." "Esse sangue negro sempre foi uma mancha na família, excepto para o avô. Sofri por causa disso. Agora é uma medalha?" (p.333) Mais uma coisa mudou na sociedade angolana: a política entrou no quotidiano dos habitantes e o povo entrou na política. "Olívia passou a ler Lenine, espetou o retrato do revolucionário russo e outro de Che Guevara no quarto onde antes estava o de Jesus. " (p.335) "Estamos a fazer o mesmo para outros bairros, com a juventude, os Comités de Acçao, mulheres, todo o povo."(p.350) Entre os membros da família Semedo há muitas discussoes sobre a política, cada um simpatiza com partido diferente. A família Semedo percebe que a guerra civil começou. "As Fapla dividem as forças da Unita e da FNLA no Lobito, conseguem meter uma cunha considerada impossível e agora tem practicamente ganho."(p.363) A Fapla realmente toma o Lobito, a Unita e a FNLA rendem-se. Ao ouvir as notícias do Lobito, e devido ao facto que já há primeiros tiros em Benguela (luta do MPLA contra FNLA), a família Semedo começa a arrumar as coisas e preparar a fuga para a África do Sul. Nao sós - os brancos compreenderam a gravidade da situaçao; muitos fogem também para Portugal. Único Alexandre e Joel, seu bisneto, ficam. Joel quer participar na criaçao do futuro angolano. Alexandre morre satisfeito que pelo menos alguém dos seus descendentes considera Angola ser a sua pátria. O grande mito grande caiu, o império portugues decompôs-se como último. Depois de muitos séculos da adoraçao duma quimera, Portugal teve que aceitar que nao existe direito `a subjugaçao e expoliaçao doutros povos. "E a Pátria, e Camoes?"(p.150) Alexandre, ao reconciliar-se no fim da sua vida com a visao de Angola como um país independente, apercebe-se da absurdidade das ideias portuguesas: "Sempre fomos homens cegos e fracos a querer travar as tempestades com as maos. Acreditando ser heróis. Heróis do mar, Naçao valente e imortal... Nao é isso que diz o Hino? Sempre fomos uns palhaços batidos pelas ondas e puxados pelas correntes. Que somos nós para enfrentar o mar?" (p.226) Um período da história angolana acabou. O colonialismo portugues foi derrubado, mas "as desilusoes nascem porque antes se criaram ilusoes". (p.334) A independencia nao resolveu os problemas como se tinha suposto; ao contrário, a situaçao era caracterizada pelo lema do MPLA: "A Luta continua." Angola saiu da guerra colonial e logo entrou na guerra civil, sendo - como um país recém-formado, cheio de controvérsias e lutas interiores - uma boneca nas maos de potencias mundiais. Teve ainda um longo caminho para andar, para atingir a paz em 2002. 3. Algumas Notas sobre o Colonialismo Portugues 3.1 Perspectiva Histórica "Idade Média no século XX" O imperialismo portugues era o imperialismo dum país atrasado em termos económicos, sociais e culturais que nem era capaz de resolver os seus próprios problemas internos. Este atraso, datado já do século XVII, tornou-se ainda mais evidente durante o período colonial e resultou - numa forma mais intensa do que acontecia com outros países envolvidos no colonialismo - roubos bem como várias formas de opressao. Portugal foi de um lado um país colonizador e de outro lado um país sob a forte influencia de outras potencias, dependente de sujeitos politicamente e economicamente mais fortes. Enquanto noutras regioes de África o colonialismo provocou a derrogaçao de relaçoes socias e económicas e o aparecimento de novas, mais progressistas, um processo semelhante nas colónias portuguesas foi travado por causa de formas e métodos da exploraçao portuguesa. A fraqueza portuguesa sempre incentivava outras potencias, sobretudo a Inglaterra e a Alemanha, para tentarem repartir o império portugues. Como o pretexto serviam notícias sobre o trabalho forçado, diferente da escravidao só pelo seu nome, e sobretudo críticas do atraso em termos gerais e a incapacidade do desenvolvimento que fosse necessário. Esta ofensiva, desenvolvida no início do século XX contra o colonialismo portugues, foi uma mistura da indignaçao ante o tratamento inumano de pretos e de tentativas de monopólios britânicos tendo como objectivo entrar neste espaço com o seu capital. Como reposta a estas críticas Portugal tentou elaborar uma doutrina colonial e justificar os seus métodos, por outro lado tentou atrair o capital com o fim de possibilitar o desenvolvimento eficiente.[34] A doutrina colonial portuguesa era sempre cheia de controvérsias, e sempre continha uma grande contradiçao entre as teorias sobre o "Ofício Sagrado", o papel histórico dos portugueses e a realidade: a política exercida face aos africanos. Nao haviam muitos lugares onde o colonialismo fosse ainda mais absurdo, mas, ao mesmo tempo, tao forte, influenciando a maioria da naçao, como acontecia em Portugal. "Quanto mais piorava a posiçao e a exploraçao dos africanos, tanto mais se firmava o régime policial nas colónias e tanto mais se ouviam palavras sobre o grande serviço que Portugal faz nas suas colónias para o benefício da humanidade."[35] "O aspecto básico dessa mitologia é uma afirmaçao que Portugal, apesar de ser fraco politicamente e militarmente, tem uma especial força espiritual que o capacita - como única naçao europeia - ficar em África bem como na Ásia e continuar com a sua missao começada já há quinhentos anos. Os doutrinadores do colonialismo proclamavam que o imperialismo portugues era algo completamente diferente dos outros imperialismos, pois nao era caracterizado >>pela exploraçao, opressao das naçoes submissas nem pilhagem sistemática, mas pelo altruismo, abnegaçao, fé e responsabilidade histórica pela civilizaçao<<." [36] Em 1947 Henrique Galvao apresentou um relatório sobre a situaçao terrível em Angola, mas este nao saiu oficialmente e ele foi preso. Só em 1954 Basil Davidson, um escritor britânico, chamou a atençao do mundo para as condiçoes em Angola, publicando duma parte o relatório de Henrique Galvao; completa foi publicada só em 1961. Galvao descreveu a bestialidade ligada ao trabalho forçado e mostrou as consequencias para a populaçao angolana. Enquanto durante a escravidao o escravo era a propriedade do dono e era o interesse do dono tratar do escravo para que pudesse trabalhar e ser eficiente (como tratava do cavalo ou boi), na época do trabalho forçado os africanos já nao pertenciam a ninguém. Os donos pediam-nos do Estado temporariamente e se um morreu, simplesmente pediram outro. Galvao também apresentou factos que, em termos de alimentaçao, a situaçao era pior do que nos tempos antigos, a populaçao sofria da subnutriçao e falta do tratamento médico; a mortalidade infantil bem como adulta era alarmante. Apesar da agitaçao da opiniao pública mundial os colonizadores nao tomaram nenhumas medidas e o desenvolvimento económico nos anos cinquenta resultou no fortalecimento do sistema de trabalho forçado, uma garantia de grandes lucros. Sem a pressao de outras potencias e mais tarde da ONU, o régime salazarista provavelmente nunca admitiria a independencia das suas colónias. A força mais importante nas maos do régime foi a PIDE, Polícia International e de Defesa do Estado. ("-Vem-se pides por todo o lado." (p.263)) Os métodos da PIDE baseavam-se nos métodos da Gestapo: os processos secretos, campos-prisoes, assassínios e desaparecimentos, a tortura, uma rede de denunciantes que espreitava todos os movimentos de pessoas suspeitas ou só um pouco liberais. O segundo ajudante foi a Igreja Católica. "Os padres lá estao `a espera, ansiosos por salvarem mais umas alminhas." (p.46) Antes de os escravos embarcarem, foram baptizados pelo bispo, que recebia certa contribuiçao por cada um; a Igreja supunha que era melhor para um africano ser escravo baptizado do que ficar pagao livre, sem esperança da tábua de salvaçao eterna. Os missionários, entre os quais a maioria eram jesuítas, dedicavam-se mais ao comércio de escravos do que `a actuaçao missionária. A sua actividade era criticada por governadores e outros colonos, sobretudo pelo seu trato duro dos escravos (tao duro que outros escravistas protestavam!). A ordem jesuíta possuía barcos escravistas que circulavam entre África e o Brasil; além disso lhe pertenciam grandes latifúndios nos quais trabalhavam os escravos. A Igreja tinha nas suas maos a educaçao - bem como em Portugal da miserável qualidade, ensinando só a submissao crista e a reconciliaçao com o destino. Nos terrenos da igreja trabalhavam milhares dos africanos forçados bem como as crianças, pois segundo a Igreja "o trabalho é o melhor meio civilizador". Enquanto noutras colónias as missoes suportavam até certo ponto as línguas indígenas (que levou `a conscientizaçao nacional), nas colónias portuguesas as escolas eram um instrumento da lusitanizaçao e educaçao segundo as ideias do panlusitanismo. É evidente que os padres católicos nem sempre se comportavam segundo os mandamentos e regulamentos, como podemos ver na personagem do padre Costa, "sempre sedente por dinheiro" (p.115): "...já tinha deixado órfaos os seus quinze afilhados mulatos e fora substituído pelo padre Horácio, mais novo, mas igualmente adepto da filosofia da reproduçao de mulatos para o crescimento da Igreja" (p.195) Os portugueses sempre se orgulhavam que nas suas colónias nao havia discriminaçao racial. É verdade que nao haviam letreiros que permitissem algo ao branco e proibissem o mesmo ao preto (como acontecia na República da África do Sul) e que a legislaçao oficialmente nao fazia diferenças entre brancos e pretos. Porém, a discriminaçao racial era praticamente aplicada em todas as esferas de vida. O africano nao podia desempenhar certos trabalhos destinados aos europeus, nao lhe foi atribuído o alvará comercial, nao tinha nenhuns direitos políticos (noutro lado isto foi o problema da maioria da populaçao sob o régime salazarista), nao tinha direito ao tratamento médico nem a frequentar as escolas europeias. Segundo as fontes oficiais portuguesas, entre 1902 (opressao dos bailundos) e março 1961 nao havia rebeliao nenhuma. Mas é evidente que a censura cuidou com esmero para que as notícias sobre o descontentamento dos africanos nao saíssem em público e as autoridades mantinham em segredo factos que indicavam a situaçao verdadeira. Os portugueses nunca reconheceram as estruturas tradicionais sociais, hábitos, tradiçoes e línguas, considerando-as bárbaras e também contestaram o direito dos povos africanos `a autodeterminaçao e autonomia. "Nós, os que estamos a construir esta terra. Nós, os civilizadores desta negralhada. Vamos pôr isto direito, nem que seja a ferro e fogo." (p.107) 3.2 A Família Semedo: Personificaçao do Colonialismo Portugues Através das peripécias de vida de geraçoes da família Semedo é que aprendemos sobre os colonos portugueses e o colonialismo em geral. Os tempos mudam e a única coisa que faz lembrar o passado e as tradiçoes do país é uma estátua yaka, que Alexandre herda do seu pai. Os pais de Alexandre eram portugueses e nunca puseram este facto em dúvida. Alexandre, "branco de segunda", passa por várias atitudes; dedica-se `a agricultura como os colonos naquela altura faziam, casa-se com uma portuguesa e produz uma nova geraçao de colonos que se consideram portugueses. Poe em prática a sua paixao pelos gregos dando-lhes nomes gregos: Aquiles, Sócrates, Orestes, Helena, Eurídice. Esses, simbolicamente representam a Europa e as tradiçoes europeias sem dúvida baseadas em tradiçoes - entre outros - da Antiguidade. Os filhos de Alexandre nao se identificam com o ambiente africano, representam o colonialismo portugues do lado ínfimo, explorando os indígenas nas terras que lhes foram roubadas. Aquiles, vivendo - como diz - uma "vida de merda de branco numa terra de pretos" (p184), só se interessa por caçadas, mulheres e fútebol, orienta os trabalhadores negros e quase nao os considera seres humanos. É morto num ataque contra os indígenas e Alexandre é perseguido pela ideia que matou o seu filho "por te-lo educado de ser superir porque branco". A geraçao seguinte ainda se comporta `a europeia, Heitor graças ao seu interesse pelo latim e grego torna-se orgulho de Alexandre. Todos sao apolíticos, excepto Sócrates que volta para Portugal para ser advogado. A única excepçao dos netos é Chico, filho mulato da enteada de Alexandre. Com a sua intençao de aderir `a UNITA já representa uma nova juventude angolana, interessada pelo seu país dividido entre diversas fracçoes políticas, e ao mesmo tempo o facto fascinante da multiracialidade angolana. "Fogueiras sagradas e infalíveis do Sagrado Ofício que deve desde já ser reactivado, e com ele os comunistas e anarquistas e lumumbistas que tem inveja satânica da felicidade que reina neste território multiracial, pois nao é a melhor prova de multiracialidade a Chucha ter ido para cama com o primo mulato?" (p.316) Alexandre Semedo, agora parecendo um patriarca, escreve as suas memórias em forma de conversas para a estátua yaka, interessa-se pela história da regiao, le livros etnográficos. Nas paredes estao penduradas as coisas que reunia toda a sua vida, bugigangas africanas, objectos de cestaria, entrançados. Através a sua paixao pelos gregos, é capaz de entender tradiçoes doutro país e respeitar a sua cultura. Encontra alguns apontamentos feitos anos atrás: "No segredo da adaga cuvale está a mensagem duma cultura para outra; nao forçosamente antagonismo, por ser uma arma; mas mensagem duma diferença nascida no passado dos homens que a fizeram e usaram." (p.278) No decorrer da sua vida tenta compreender a mensagem que a estátua lhe transmite. Se calhar nao propriamente para ele, mas relacionada com ele certamente. "A mensagem vinha das profundezas da História? Vinha do sítio onde fora talhada e pintada?" (p.172) Ao ver os olhos dela, que sempre o incomodavam e irritavam, sente remorsos, sente que os conquistadores serao castigados por terem agido injustamente. E também sente a força espiritual do povo: os deuses deles estao tao presentes no ambiente, bem como eram os deuses gregos. "-Os homens podem atrasar a vontade dos deuses. Nunca evitá-la. Os heróis sao sempre vencidos e, pior, humilhados pelos deuses. E aqui nem heróis há! - Os deuses sao os pretos? - perguntou Glória. - É isso que o pai quer dizer? -Quase isso. Os deuses deles... sei lá! Nao sei explicar." (p.193) A soluçao só vem com a personagem do bisneto, Joel. Explica que a estátua representa um colono ridicularizado - burro e ambicioso. Alexandre nao consegue ve-lo, pois ele mesmo é um deles. Joel sente que a estátua fala duma compreensao entre homens, mesmo diferentes, e nisso ve o futuro de Angola. "Já estamos a lutar juntos, homens de raças diferentes. Será o primeiro caso em África, dizem os camaradas." (p.388) No fim do romance, portanto mesmo no fim da vida de Alexandre, a estátua fala directamente para ele: a geraçao dele será a última. Isto a estátua dizia-lhe toda a vida e ele só agora entendeu. 4. Conclusao Yaka é um romance sobre a última época do colonialismo portugues, personificado pelos membros da família Semedo: através das suas peripécias, ambiçoes, sucessos, insucessos, discussoes e dúvidas descobrimos o caminho que levou Angola, terra dos degregados e exploraçao colonial em 1890, até a independencia em 1975. O início do romance descreve a viragem dos séculos XIX e XX: retrata as tentativas agrícolas e a exploraçao de recursos naturais - borracha, couro, marfim e cera - de grande valia no mercado internacional. Anos mais tarde, observamos a crueldade da acçao colonizadora, roubos e massacres contra a populaçao nativa, proprietária de terras. Roubos de terras deram origem a grandes levantamentos no decorrer da primeira metade do século XX. As tribos tentavam defender defender terras, que utilizavam para a pastorícia ou para a agricultura, contra os colonos, tendo como objectivo a plantaçao de café ou algodao, um negócio rendoso. Assistimos ao nascimento dos movimentos populares pela libertaçao do país, MPLA, UPA/FNLA, UNITA, e ao mesmo tempo, reparamos que desde o início houve controvérsias entre eles, o combate nunca esteve unido. Vemos os massacres em 1961 e começo da guerra colonial que levou até a independencia em 1975, conseguida duma parte graças a lutas dos movimentos de libertaçao, mas principalmente facilitada pela queda do regime salazarista em 1974 e pela pressao de outros países e organizaçoes internacionais. Embora os movimentos de libertaçao acreditassem que controlavam a situaçao, sempre eram influenciados pelas potencias mundiais que tinham seus interesses em África ou geralmente na cena política mundial. Seguimos como se transforma a sociedade composta por dois elementos antagónicos - os indígenas pretos e os colonos brancos - numa sociedade mista, bem como o nascimento da "angolanidade", pertinencia ao país que está a ser criado. Toda a história é acompanhada por Yaka, a estátua que assiste `a toda a história da família e só no fim é entendida: sempre previa o fim do colonialismo. Pepetela escreveu este livro com o objectivo de testemunhar uma época da história angolana, por isso encontramos um grande número de referencias históricas. Ao ler as fontes históricas, descobrimos que todos os acontecimentos importantes tem seu eco no romance, seja na narraçao, seja nos diálogos ou contemplaçoes das personagens. Cumpriu a sua tarefa: conseguiu retratar certa época de história angolana e transmitir as informaçoes para que nao sejam esquecidas; se retirássemos os dados históricos, estes podiam servir de documento histórico. Nesta obra, Pepetela assumiu em absoluto a sua funçao de romancista-historiador. 5. Bibliografia 1) Pepetela: Yaka. Publicaçoes Dom Quixote, Lisboa 1998. 2) Klíma, Jan: Angola. Libri, Praha 2003. 3) Klíma, Jan: Poslední koloniální válka. Libri, Praha 2001. 4) Hrbek, Ivan a kol.: Dìjiny Afriky, kniha druhá. Svoboda, Praha 1966, pp.90-102, 533-543. 5) Ilife, John: Afrika a Afrièané. Dìjiny kontinentu. Vy¹ehrad, Praha 2001. 6) Votrubec, Ctibor: Angola. Nakladatelství politické literatury, Praha 1966. pp.52-77. 7) José de Sousa Bettenvourt: Mecanismo de uma Integraçao Social. In Boletim do Instituto de Investigaçao Científica de Angola. Luanda 1965, pp. 267-271. 8) Birmingham, David: Portugal e África. Vega, Lisboa 2003. 9) O Desafio Africano. Vega, Lisboa 1997. 10) Medina, Joao: História de Portugal., vol.XIII. Edita Ediclube. pp.317-324 11) United Nations: Report of the Sub-Comitee on the Situation in Angola. New York 1962. 12) Camoes, Luís de: Os Lusíadas. Editora Ulissea, 1999. Internet: Country study on Angola. Yaka. Eugene M. Baer: Pepetela: Yaka. Mata, Inocencia: Pepetela e as (novas) margens da naçao angolana. Serrano, Carlos: Romance como Documento Social: o Caso de Mayombe. ------------------------------- [1] Camoes: Os Lusíadas, p.273. [2] Pepetela significa pestana em umbundo, língua bantu do sul de Angola. [3] MPLA -- Movimento Popular para a Libertaçao de Angola. [4] Yaka. http://www.citi.pt/cultura/literatura/romance/pepetela/yaka.html [5] Ibidem. [6] Serrano: Mayombe como Documento Social. [7] Manikongo -- soba; naquela altura Nzinga-a-Nkuwa. [8] Hrbek: Dìjiny Afriky, kniha druhá, p.95. [9] Lunda -- Província do Nordeste de Angola; antigo reino muito importante. [10] O romance é dividido em cinco partes: A Boca: 1890/1904, Os Olhos: 1917, O Coraçao: 1940/41, O Sexo: 1961, As Pernas: 1975. [11] Degregados -- pessoas condenadas em Portugal e exiladas. Chegavam a partir so séc. XVI e faziam uma parte substancial dos imigrantes. [12] Brancos nascidos aos pais vindos de Portugal eram chamados brancos de segunda. Tembém no primeiro bilhete de ientidade de Alexandre vinha: raça -- branco de segunda. [13] Vide Country study on Angola. [14] Mucubais -- corruptela portuguesa do nome do povo cuvale, populaçao do sul ocidental de Angola, essencialmente pastora. [15] Mundombes -- populaçao pastora que habita o Dombe Grande, relacionada com os cuvale; populaçao originária da zona de Benguela. [16] Cipaios -- políciais africanos encarregados de policiar a populaçao africana. [17] Também Mutu-ia-Kevela ou Mutu-ya-Kavela [18] Vide História de Portugal, p.319. [19] Vimbali -- africanos que serviam de intermediários no comércio; geralmente citadinos, os que "viviam como os brancos". [20] Chitaca -- roça; fazenda. [21] Calcinhas -- (depreciativo) que se veste `a europeia. [22] Sumbes -- vivem na regiao de Sumbe, a norte de Benguela. [23] Seles -- localizados ao sul dos sumbes. Sao conhecidos pela resistencia aos colonizadores. [24] Guerra preta -- querra contra as populaçoes africanas sublevadas. [25] Klíma: Angola, p.54. [26] Até havia um provérbio nas colónias portuguesas: Deus criou os brancos e os pretos, mas os portugueses criaram mestiços. [27] Patrice Lumbumba -- líder do partido que ganhou as primeiras eleiçoes no Congo independente. Foi morto em 1961 perto da fronteira angolana pelos inimigos políticos. Tornou-se um símbolo da revolta contra as tendencias chamadas neocolonialismo. [28] Portugal integrou-se na NATO em 1949. [29] COTONANG -- Companhia Geral dos Algodoes de Angola. [30] Birmingham: Portugal e África, p.165. [31] Klíma: Poslední koloniální válka, p.19. [32] Ibidem, p.49. [33] FAPLA -- Forças Armadas Populares de Libertaçao de Angola, forças armadas do MPLA. [34] Vide Dìjiny Afriky, kniha druhá, p.533. [35] Ibidem, pp.533-534. [36] Ibidem, p. 534.